Semanas atrás me deparei com um vídeo postado por uma linda senhora. Uma senhora madura, aparentando ser uma representante da classe média bem sucedida (quase um pleonasmo).
No vídeo esta senhora, agindo quase que como uma coach, de maneira simples e positiva, apresentava uma dicotomia do "ter" e do "ser", acentuando que de uma forma geral as pessoas almejam ter ou ser o que não têm ou não são. Evidenciava que a busca da felicidade estava sempre em ter ou ser o que os outros já tinham ou os outros já eram. Em contraponto lembrava a necessidade viver o que já se tem ou o que já se é. Em dado momento, resume e consolida afirmando que também de uma forma geral "vivemos em busca do que falta, do que está do outro lado da cerca" e conclui afirmando a necessidade de valorizarmos o que já se tem, o que já se é.
Interessante a abordagem! "Curti" a postagem e comentei (apesar de não ter esta pratica usualmente):
Apesar de concordar com tudo que falas não consigo esquecer que estas palavras não cabem naqueles que ainda não têm o mínimo para sobreviver. Temos que ser gratos por estarmos vivos mas precisamos nos preocupar em garantir um mínimo de dignidade para aqueles "invisíveis" que não dispõem nem da tolerância dos que conseguem ao menos um pouco para sobreviver. Precisamos nos preocupar em exigir politicas publicas que garantam a decência aos que não tiveram as oportunidades que tivemos. Em tempo, Você é linda!!.
Alguns dias depois verifiquei que muitas pessoas tinham "curtido" o meu comentário e mais alguns dias depois a rede social me notifica que alguém que "curtiu" o meu comentário, emitiu uma resposta. Apressei-me a ver e eis que:
Concordo com você. Mas, se você, eu, fizermos nossa parte aos próximos que estão próximos, já aliviaremos e muito, muitos necessitados.
Fiquei feliz por ter encontrado alguém que se predispôs a comentar positivamente minha posição em relação à postagem original. Entretanto a partir solução sugerida na resposta, percebi que não consegui alcançar a plenitude do entendimento da minha exposição.
Quando afirmo, no meu comentário que além de valorizarmos o que já temos ou somos, precisamos nos preocuparmos com aqueles que "invisíveis" nada "têm" e quase nada "são". Para isso Precisamos nos preocupar em exigir politicas publicas que garantam a decência aos que não tiveram as oportunidades que tivemos.
Não se trata tão somente de agirmos com empatia e altruísmo com os mais próximos, o que já é por demais positivo e só depende da nossa própria boa vontade. Precisamos nos posicionarmos politicamente para escolher as pessoas que estejam comprometidas e possam de alguma forma influenciar com politicas públicas e mudar o Inconsciente Coletivo de forma a fazer com que uma dignidade mínima esteja disponível para todos.
O Inconsciente Coletivo, conceito da psicologia analítica de Carl Jung, é um reservatório universal de conteúdos inconscientes herdados de ancestrais, que se manifestam através de símbolos, padrões e tendências comportamentais comuns a toda a sociedade, não adquiridos individualmente, mas herdados.
Carl Jung acreditava que o inconsciente coletivo é a sede do poder e da transformação interna. Embora a mudança direta do inconsciente coletivo não seja algo tangível, indivíduos e grupos com grande influência cultural, política ou artística podem, através de suas ações e ideias, influenciar os símbolos, arquétipos e narrativas que o compõem, promovendo mudanças graduais nos valores e comportamentos coletivos.
Nos tempos atuais, onde se pratica de forma acentuada o egocentrismo exacerbado, onde frases emblemáticas fazem parte deste Inconsciente Coletivo, como por exemplo:
"Cada por si e Deus por todos"
"O importante é levar vantagem em tudo, certo?"
Mudanças são necessárias e urgentes. A titulo de exemplo uma serie de mudanças já foram implementadas ao longo de nossa história:
O Voto das Mulheres, era inconcebível antes de 1932
O Voto do Analfabeto só foi possível a partir de 1985
A jornada de trabalho de 8 horas em 1943
Direito a Férias de 20 dias em 1949 e Férias de 30 dias em 1977
O direito ao 13º Salario em 1962
Todos estes exemplos acima mostram que politicas publicas quando implementadas mudam os padrões, símbolos e comportamentos coletivos. As gerações mais novas nem imaginam como seria viver sem férias ou o recebimento do 13º salario. Alguns podem até nem acreditar que as mulheres não tinham o direito de votar. Todos estes exemplos são mudanças que ocorreram há muito pouco tempo e já fazem parte deste Inconsciente Coletivo que abordamos.
Atualmente está em curso uma serie de mudanças implementadas já neste quarto de século. As cotas sociais para ingresso na Universidade e no funcionalismo público que garantem acesso aos menos protegidos, O programa Minha Casa Minha Vida, a Lei de Valorização do Salario Mínimo acima da inflação, o programa Bolsa Família, o programa Farmácia Popular e o próprio SUS que tentam proporcionar um mínimo de dignidade aos mais desprotegidos. Não podemos esquecer que estas mudanças recentes ainda sofrem uma consistente resistência de alguns que já estão com a sua dignidade atendida mas não se preocupam com bem estar comum.
Soa necessário que a nossa comunidade, tão profícua em normalizar o sofrimento dos outros, tenha a capacidade de se indignar quando presenciamos cidadãos em situação de rua, cidadãos que habitam morros e favelas com esgoto a céu aberto, cidadãos mendigando comida e outras tantas mazelas que ainda existem em nossa realidade e que de certa forma, principalmente por estarmos muito empenhados em "nossa" própria realização, esta mazelas citadas se tornam invisíveis para a grande maioria das pessoas. Antes de qualquer coisa precisamos estar atentos e observar a vida em torno de nós mesmos e principalmente nos indignarmos com as diversas situações de sofrimento de outros concidadãos que estão, a cada passo, diante de nós. A partir desta indignação podemos escolher influenciar através de incentivos as manifestações culturais, artísticas e políticas daqueles grupos que se comprometem a mudar este quadro de sofrimento.
Nenhum comentário:
Postar um comentário