Confesso que me encontro numa
situação absolutamente intranquila. As coisas que estão acontecendo no nosso
país me deixam bastante preocupado. Eu não consigo entender como que pessoas bem sucedidas, serias, maduras, preparadas, ilustradas. letradas, alguns até brilhantes, conseguem defender este
"estado de coisas". Na ditadura falava-se em "fazer crescer o
bolo para depois repartir" hoje a retórica é "se a economia estiver
bem todos estarão bem".
Em alguns momentos na análise da situação, chego até a imaginar a possibilidade
de estar confuso em relação as minhas convicções, entretanto como essas
convicções são fruto de princípios e valores éticos firmes me convenço que a
"confusão" na análise não está nas minhas verdades primeiras e chego
à conclusão de que algo muito forte, aconteceu e ainda está acontecendo.
Senão vejamos.
Observando os métodos que esta vida moderna nos têm impingido, com uma
avalanche de informações disponíveis, sem a necessária preocupação de mostrar o
contraditório, percebo a possibilidade de isso ter gerado uma visão errada em
relação ao desenvolvimento dos fatos. Passamos a viver superalimentados de notícias
e na maioria das vezes não temos tempo de analisá-las. A onda tsunamica de
informações impede uma parada para reflexão e verificação "dos
porquês" e "os para que". Como se estivéssemos sendo empurrados
para um abismo! "Paramos de pensar" passamos a "surfar a onda do
momento". Estamos perdendo aos poucos a necessidade de fixar "os pés
no chão" e esperar a "onda passar"
Corroborando essa analise eu relembro que a grande mídia exerceu um papel
sectário ao longo desses últimos 30/40 anos. Período em que saímos de
uma Ditadura Militar e passamos a viver uma fase de elaboração constituinte e
posterior promulgação de uma nova Constituição. Verificamos que a
grande mídia acomodou suas linhas editoriais às mudanças na orientação política
vigentes em cada período. Contrariando, por definição, o espirito de
isenção político partidário que deve nortear o desempenho da imprensa
livre. Cita-se amiúde o caso de um determinado grupo da grande mídia
que emitiu um editorial que apoiava a ditadura militar e algum tempo depois de
revertida a ditadura, publica um novo editorial que nega o anterior. Este é um
ponto importante na elaboração da análise.
Por outro lado, se prestarmos atenção aos fatos históricos, numa analise leiga
pois não detenho o rigor acadêmico de um historiador, verificamos
que nunca no nosso país tivemos uma orientação social progressista estabelecida
no governo até a ascensão do Partido dos Trabalhadores. Houve um período de
governo populista com alguma conotação social no período de Getúlio Vargas.
O
que sempre nos guiou como política de Estado, desde a época da extração do Pau
Brasil, foi a preocupação maior de dar satisfação ao "humor
empresarial" da elite econômica. Este "humor empresarial"
sempre que contrariado, impôs movimentos revolucionistas que caracterizam a
nossa história desde sempre. A proclamação da república, como
consequência da Abolição da Escravatura é um exemplo claro.
Chego
a ousar definir que nunca fomos um país de verdade senão um aglomerado de
"negocistas" buscando satisfazer seus lucros, seja com a extração do
Pau Brasil, seja com a extração do ouro, seja com a produção e exportação de
açúcar, café, cacau, minério de ferro, soja e por aí vai.
Ou
seja, nunca fomos uma nação! Sempre fomos um "ajuntamento negocial"
regido pela ganancia extrativista de uma minoria endinheirada que se julga dona
desta imensa fazenda chamada Brasil. Talvez isto até explique porque
conseguimos permanecer uno e não segmentado como a América Espanhola.
Voltando aos dias atuais, podemos garantir que esta mesma elite econômica
continua a exercer este papel hoje de uma forma mais organizada e garantida
pelo processo de "rentismo" estabelecido e praticado com a maestria
de um "apartheid" econômico com graves consequências sociais a
começar pela brutal desigualdade de riqueza e renda.
Com a promulgação da nova Constituição e posteriormente a ascensão do Partido
dos Trabalhadores ao poder, a grande mídia que é parte desta elite
econômica, durante estes vinte últimos anos iniciou um processo de
lavagem cerebral influenciando a sedimentação no inconsciente coletivo da
grande massa de eleitores pelo Brasil afora, de uma espécie de revolta contra o
poder constituído e legitimado pelo voto. com o objetivo de fazer voltar a
valer o "teatro" que foi a nossa "estrutura institucional"
nas mãos de "políticos confiáveis".
Claro
que a falta de correção no trato do dinheiro público deu margem a campanhas de
difamação generalizada da classe Política, o que por princípio é falso e inapropriado.
Foram
novelas, casos especiais, noticiário inflamado sem direito ao
contraditório, programas humorísticos com personagens emblemáticos etc.
etc.
Nos primeiros anos, como consequência dos bons resultados apresentados
pelos programas sociais, pelos resultados na economia, na geração de emprego,
este estratagema não apresentou grandes resultados. Mas a semente da
insatisfação estava lançada.
A
classe média acostumada aos privilégios e "saídas" elitistas para
driblar a catastrófica desigualdade social não absorveu o crescimento
significativo da qualidade de vida de brasileiros pobres que passaram a ter uma
vida mais digna, e com possibilidades de crescimento social que lhes deu acesso
a um sem número de "nichos" que a classe média assumia ser de seu uso
exclusivo.
Assim,
num processo de "reparação histórica" a Universidade, agora renovada
em número e qualidade, passa a receber um número significativo de oriundos das
escolas públicas e afrodescendentes fruto de uma decisão política de
estabelecimento de cotas de acesso.
Com
a "estabilidade" no nível de emprego, função da retomada da indústria
de óleo e gás, que refletiu em um sem número de segmentos industriais como
a indústria naval, a indústria de construção e montagem, a indústria de
construção civil, a indústria metalomecânica e outras tantas, esta
"mudança" gerou um crescimento do poder aquisitivo de uma parcela
significativa da população que agora podia usufruir de uma condição de vida que
lhes garantia acesso a diversos nichos, antes privilegio da classe média, por
exemplo os planos de assistência medica, planejamento de lazer e turismo,
aquisição de moradia em regiões mais nobres das grandes cidades, etc., etc.
Esta nova situação, gerou uma insatisfação muito grande na classe média que em
algumas reações chegou a publicar na internet pérolas como: "Aeroporto
agora está pior que rodoviária!" Mal-acostumados que estavam e
então tinham que lidar com pessoas mais humildes em Aeroportos, restaurantes grã-finos,
salas de teatro, aviões em viagem ao exterior, e por aí vai. "Este
quadro de coisas não pode ficar assim!" Diziam. Isto tem que mudar! Pensavam.
Assim posto, partiram para a Ação.
Apesar dos ventos promissores que também lhes sopravam, a classe média passou a
engrossar as fileiras da Elite Econômica que não descansara em retomar
para as mãos da ”direita servil" o comando do poder que tinha sido
açambarcado pelo o que eles chamam de "esquerda asquerosa".
Não
tiveram sucesso com as eleições em 2014. Precisaram transformar em crime
de responsabilidade, uma atitude contábil largamente utilizada por
antecessores, sem falar no bloqueio parlamentar imposto por conhecidos
delinquentes travestidos de políticos, que apostaram no "quanto
pior, melhor” e que resultou na destituição da Presidente eleita com
54 milhões de votos
Percebe-se
aqui, "a olho nu", que a vontade do povo não é uma variável
importante, neste tipo de análise golpista!
Mais uma vez a elite econômica mal-humorada e contrariada em suas expectativas
de vassalagem prepara-se para dar "mais um bote" nesta pobre
republiqueta de bananas. Usando a insatisfação da classe média aristocrática e
boçal e com a ajuda da grande mídia passaram a dar ênfase exacerbada a uma
conduta perversa e plenamente normatizada em nossa cultura que é a corrupção. A
mídia quase nos fez acreditar que esta macula era uma criação das esquerdas
progressistas, esqueceram como que num passe de mágica todas as narrativas
escandalosas dos eventos medonhos de corrupção ao longo de nossa história
"republicana". Conseguiram imputar ao líder dessa fase progressista a
alcunha de "ladrão" mesmo que nenhuma prova tenha sido apresentada,
impuseram-lhe uma pena de reclusão eleitoralmente oportunista sob a alegação
que o aparato judicial tinha convicções da pratica corrupta do acusado.
Uma Balela! O mundo inteiro se posicionou com censuras ao processo, e apoio ao
acusado.
A elite econômica conseguiu! As rédeas foram retomadas! A vassalagem foi
restabelecida. Os pesadelos geopolíticos da matriz estavam afastados! A tarefa
agora seria "limpar" os efeitos progressistas sobre a estrutura de
poder e mostrar ao povo de maneira clara,
Quem é que manda aqui!
PS.: Acidente de percurso. O Coronavirus acelerou a necessidade de dar um
"chega pra lá" no palhaço que a Elite Econômica colocou lá no
primeiro papel