quarta-feira, 25 de março de 2020

Quem é que manda aqui!

Confesso que me encontro numa situação absolutamente intranquila. As coisas que estão acontecendo no nosso país me deixam bastante preocupado. Eu não consigo entender como que pessoas bem sucedidas, serias, maduras, preparadas, ilustradas. letradas, alguns até brilhantes, conseguem defender este "estado de coisas". Na ditadura falava-se em "fazer crescer o bolo para depois repartir" hoje a retórica é "se a economia estiver bem todos estarão bem". 

Em alguns momentos na análise da situação, chego até a imaginar a possibilidade de estar confuso em relação as minhas convicções, entretanto como essas convicções são fruto de princípios e valores éticos firmes me convenço que a "confusão" na análise não está nas minhas verdades primeiras e chego à conclusão de que algo muito forte, aconteceu e ainda está acontecendo. Senão vejamos.

Observando os métodos que esta vida moderna nos têm impingido, com uma avalanche de informações disponíveis, sem a necessária preocupação de mostrar o contraditório, percebo a possibilidade de isso ter gerado uma visão errada em relação ao desenvolvimento dos fatos. Passamos a viver superalimentados de notícias e na maioria das vezes não temos tempo de analisá-las. A onda tsunamica de informações impede uma parada para reflexão e verificação "dos porquês" e "os para que". Como se estivéssemos sendo empurrados para um abismo! "Paramos de pensar" passamos a "surfar a onda do momento". Estamos perdendo aos poucos a necessidade de fixar "os pés no chão" e esperar a "onda passar" 

Corroborando essa analise eu relembro que a grande mídia exerceu um papel sectário ao longo desses últimos 30/40 anos. Período em que saímos de uma Ditadura Militar e passamos a viver uma fase de elaboração constituinte e posterior promulgação de uma nova Constituição. Verificamos que a grande mídia acomodou suas linhas editoriais às mudanças na orientação política vigentes em cada período. Contrariando, por definição, o espirito de isenção político partidário que deve nortear o desempenho da imprensa livre. Cita-se amiúde o caso de um determinado grupo da grande mídia que emitiu um editorial que apoiava a ditadura militar e algum tempo depois de revertida a ditadura, publica um novo editorial que nega o anterior. Este é um ponto importante na elaboração da análise. 

Por outro lado, se prestarmos atenção aos fatos históricos, numa analise leiga pois não detenho o rigor acadêmico de um historiador, verificamos que nunca no nosso país tivemos uma orientação social progressista estabelecida no governo até a ascensão do Partido dos Trabalhadores. Houve um período de governo populista com alguma conotação social no período de Getúlio Vargas. 
O que sempre nos guiou como política de Estado, desde a época da extração do Pau Brasil, foi a preocupação maior de dar satisfação ao "humor empresarial" da elite econômica. Este "humor empresarial" sempre que contrariado, impôs movimentos revolucionistas que caracterizam a nossa história desde sempre. A proclamação da república, como consequência da Abolição da Escravatura é um exemplo claro.
Chego a ousar definir que nunca fomos um país de verdade senão um aglomerado de "negocistas" buscando satisfazer seus lucros, seja com a extração do Pau Brasil, seja com a extração do ouro, seja com a produção e exportação de açúcar, café, cacau, minério de ferro, soja e por aí vai. 
Ou seja, nunca fomos uma nação! Sempre fomos um "ajuntamento negocial" regido pela ganancia extrativista de uma minoria endinheirada que se julga dona desta imensa fazenda chamada Brasil. Talvez isto até explique porque conseguimos permanecer uno e não segmentado como a América Espanhola. 

Voltando aos dias atuais, podemos garantir que esta mesma elite econômica continua a exercer este papel hoje de uma forma mais organizada e garantida pelo processo de "rentismo" estabelecido e praticado com a maestria de um "apartheid" econômico com graves consequências sociais a começar pela brutal desigualdade de riqueza e renda. 

Com a promulgação da nova Constituição e posteriormente a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder, a grande mídia que é parte desta elite econômica, durante estes vinte últimos anos iniciou um processo de lavagem cerebral influenciando a sedimentação no inconsciente coletivo da grande massa de eleitores pelo Brasil afora, de uma espécie de revolta contra o poder constituído e legitimado pelo voto. com o objetivo de fazer voltar a valer o "teatro" que foi a nossa "estrutura institucional" nas mãos de "políticos confiáveis". 
Claro que a falta de correção no trato do dinheiro público deu margem a campanhas de difamação generalizada da classe Política, o que por princípio é falso e inapropriado.
Foram novelas, casos especiais, noticiário inflamado sem direito ao contraditório, programas humorísticos com personagens emblemáticos etc. etc.

Nos primeiros anos, como consequência dos bons resultados apresentados pelos programas sociais, pelos resultados na economia, na geração de emprego, este estratagema não apresentou grandes resultados. Mas a semente da insatisfação estava lançada. 


A classe média acostumada aos privilégios e "saídas" elitistas para driblar a catastrófica desigualdade social não absorveu o crescimento significativo da qualidade de vida de brasileiros pobres que passaram a ter uma vida mais digna, e com possibilidades de crescimento social que lhes deu acesso a um sem número de "nichos" que a classe média assumia ser de seu uso exclusivo. 
Assim, num processo de "reparação histórica" a Universidade, agora renovada em número e qualidade, passa a receber um número significativo de oriundos das escolas públicas e afrodescendentes fruto de uma decisão política de estabelecimento de cotas de acesso.
Com a "estabilidade" no nível de emprego, função da retomada da indústria de óleo e gás, que refletiu em um sem número de segmentos industriais como a indústria naval, a indústria de construção e montagem, a indústria de construção civil, a indústria metalomecânica e outras tantas, esta "mudança" gerou um crescimento do poder aquisitivo de uma parcela significativa da população que agora podia usufruir de uma condição de vida que lhes garantia acesso a diversos nichos, antes privilegio da classe média, por exemplo os planos de assistência medica, planejamento de lazer e turismo, aquisição de moradia em regiões mais nobres das grandes cidades, etc., etc. Esta nova situação, gerou uma insatisfação muito grande na classe média que em algumas reações chegou a publicar na internet pérolas como: "Aeroporto agora está pior que rodoviária!" Mal-acostumados que estavam e então tinham que lidar com pessoas mais humildes em Aeroportos, restaurantes grã-finos, salas de teatro, aviões em viagem ao exterior, e por aí vai. "Este quadro de coisas não pode ficar assim!" Diziam. Isto tem que mudar! Pensavam. Assim posto, partiram para a Ação. 

Apesar dos ventos promissores que também lhes sopravam, a classe média passou a engrossar as fileiras da Elite Econômica que não descansara em retomar para as mãos da ”direita servil" o comando do poder que tinha sido açambarcado pelo o que eles chamam de "esquerda asquerosa".
Não tiveram sucesso com as eleições em 2014. Precisaram transformar em crime de responsabilidade, uma atitude contábil largamente utilizada por antecessores, sem falar no bloqueio parlamentar imposto por conhecidos delinquentes travestidos de políticos, que apostaram no "quanto pior, melhor” e que resultou na destituição da Presidente eleita com 54 milhões de votos
Percebe-se aqui, "a olho nu", que a vontade do povo não é uma variável importante, neste tipo de análise golpista! 

Mais uma vez a elite econômica mal-humorada e contrariada em suas expectativas de vassalagem prepara-se para dar "mais um bote" nesta pobre republiqueta de bananas. Usando a insatisfação da classe média aristocrática e boçal e com a ajuda da grande mídia passaram a dar ênfase exacerbada a uma conduta perversa e plenamente normatizada em nossa cultura que é a corrupção. A mídia quase nos fez acreditar que esta macula era uma criação das esquerdas progressistas, esqueceram como que num passe de mágica todas as narrativas escandalosas dos eventos medonhos de corrupção ao longo de nossa história "republicana". Conseguiram imputar ao líder dessa fase progressista a alcunha de "ladrão" mesmo que nenhuma prova tenha sido apresentada, impuseram-lhe uma pena de reclusão eleitoralmente oportunista sob a alegação que o aparato judicial tinha convicções da pratica corrupta do acusado. Uma Balela! O mundo inteiro se posicionou com censuras ao processo, e apoio ao acusado.

A elite econômica conseguiu! As rédeas foram retomadas! A vassalagem foi restabelecida. Os pesadelos geopolíticos da matriz estavam afastados! A tarefa agora seria "limpar" os efeitos progressistas sobre a estrutura de poder e mostrar ao povo de maneira clara,

                                 
Quem é que manda aqui! 


PS.: Acidente de percurso. O Coronavirus acelerou a necessidade de dar um "chega pra lá" no palhaço que a Elite Econômica colocou lá no primeiro papel

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