Algumas vezes "fatos inusitados" geram perplexidade e daí algum tipo de reação racional ou não. Até aqui nada de novo. Ou seja uma pura e simples constatação. Mas eis que o grande rebuliço causado por um filme brasileiro, ao redor do mundo, com premiações importantes por onde passa, chamou a atenção da "poderosa" indústria cinematográfica americana representada fielmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, entidade concebida no século passado por ninguém menos que o proprietário de uma das mais icônicas companhias de cinema do mundo a Metro-Goldwyn-Mayer, que ao longo de quase 100 anos tem direcionado suas premiações num contexto que avalia mais o aspecto comercial e influenciador da película, em detrimento da avaliação artística que é uma característica mais marcante de outras entidades similares notadamente na Europa - Festival Internacional de Veneza, Festival de Cannes. Festival internacional de Cinema de Berlim, entre outros. Apesar da importância dos aspectos de marketing, comerciais e artísticos de cada uma da entidades citadas, serem amplamente conhecidas, na realidade a perplexidade gerada pelo filme brasileiro rodado com base em uma historia brasileira, com atores e diretores brasileiros e gravado em português, ou seja uma película "fora do contexto midiático normal", gerou uma certa inquietação no mercado cinematográfico. Todos precisam entender o fenômeno e uma enxurrada de comentários, criticas cinematográficas, edições especiais de revistas especializadas, programas televisivos de grande repercussão, etc., geraram uma roda viva, desde agosto de 2024, para atores e diretores. Nesta roda viva uma serie de boas novidades começaram a surgir, por exemplo descobrimos que além de bem nascida, carismática e multitalentos, a Fernanda Torres é uma poliglota. O filme antes da semana de votação pela Academia, estava passando em 97 cinemas nos EEUU. Na semana seguinte passou a ser exibido em mais 900 salas de cinema e ultrapassa 5 milhões de espectadores por lá.
Faltando pouco para a cerimonia de entrega dos prêmios, críticos renomados começam, como de costume, a emitir as suas analises com o gabarito de celebridade e dentre outras uma me chamou atenção pois além da analise critica, fez questão de tentar explicar o fenômeno, a perplexidade e emite uma opinião essencialmente diferente. Owen Gleiberman, critico da revista de moda e entretenimento Variety, emite a seguinte analise:
"Tenho assistido a filmes sobre opressão política e
cenários como este durante a maior parte da minha vida. Mas em todo esse tempo,
posso dizer honestamente que raramente experimentei uma reação tão arrepiante
quanto a que tive assistindo a "I'm Still Here". O filme em si,
especialmente a primeira hora, é poderoso. Mas não foi isso; já vi muitos
filmes políticos poderosos. O que parecia novo para mim — e intensamente
inquietante — era absorver uma saga de repressão como esta e me perguntar se agora
tinha potencial para acontecer na América. Senti como se fosse uma pergunta que
nunca tive que me fazer antes"
e continua,
"O fim da democracia é o que vimos em filmes ambientados
na Europa, ou em países como a Argentina (como “The Official Story”, o “I'm
Still Here” dos anos 80), ou a China de Mao. Em algum nível, confesso, sempre
absorvi esses filmes sentindo como se estivesse assistindo ao que acontece com
“eles”. As pessoas que vivem nos lugares onde o totalitarismo pode criar
raízes. Acho que um dos maiores filmes do nosso tempo é “The Unbearable
Lightness of Being”, de Philip Kaufman, porque é um drama de pessoas comuns apaixonadas
presas em um pesadelo político. Sempre assisti a esse filme com uma sensação de
dois gumes: que os personagens são como eu... mas como estão lidando com a
repressão comunista de 1968 na Tchecoslováquia, eles também não são como eu.
Porque é onde acontece. Lá .
"Quando vi “I'm Still Here”, pensei: Quão certo
estou de que isso ainda é verdade? Quão assustador é pensar que lá, pela
primeira vez, pode se tornar aqui?"
Os estadunidenses estão em perplexidade pois pela primeira vez eles percebem a possibilidade de vivenciar aquilo que durante muito tempo o seu país fez os "de lá" experimentar.
Isto posto poderíamos pensar em rodar um novo longa metragem chamado " O Troco", e contar a história que está acontecendo lá, na casa deles!
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