Mais de um ano se passou sem que eu tenha escrito uma postagem sequer. Triste constatação. Principalmente sabendo-se que uma das metas do final do ano de 2023, era consolidar o hábito de escrever diariamente durante o ano de 2024. Não consegui pois de imediato me senti obrigado a fazer acontecer uma coisa que só deve ocorrer por inspiração nunca por imposição. Ainda que uma auto imposição. Boicotei-me sem dó!!! (e sem arrependimento).
Mas eis que hoje me deu vontade de escrever. E aqui estou! Parafraseando uma uma frase muito difundida ultimamente: "Ainda estou aqui".
A condição "aposentado" nos remete compulsoriamente a um ostracismo, não no conceito ateniense de punição mas no sentido de "afastamento da onda cotidiana". Assim sendo, dou-me ao hábito de refletir sobre os temas, os mais variados, que me chegam, no intuito de preencher o tempo e me proporcionar a sensação de produtividade à esta condição que a vida me trouxe.
O ato de refletir me traz a possibilidade de rever, sob o ponto de vista dos princípios, valores e verdades primeiras que me caracterizam, os conceitos que o tema sob reflexão reúne no seu contexto. Ao rever tais conceitos deparo-me, volta e meia, com paradoxos que consolidam a minha maneira de pensar, avaliar ou mesmo julgar. Algumas vezes chego a me questionar e nestes momentos dou-me o direito de evoluir. Sintetizando, acontece como um tipo de auto terapia onde me asseguro o direito de me ouvir.
Um tema recorrente é a coexistência humana, com ênfase no posicionamento em relação ao outro. Pondo de lado as amarras filosóficas das religiões, e também os ditames autoritários dos regimes políticos impostos por lideranças(?) que se perpetuam na elite dominadora, resta-me avaliar a condição humana de forma pura e simples.
Nascemos todos iguais, inocentes e livres seja qual for o tempo e local do nascimento. ou seja sem máculas. Estamos predestinados a habitar um espaço por um período que será determinado pelas limitações e potencialidades características da vida que se leva. Habitamos o território disponibilizado, respiramos o ar disponível livre de qualquer limitação e partimos para amealhar os conhecimentos que as experiências de sobrevivência nos proporcionarem.
Aqui começamos a nos diferenciar: Os mais astutos, mais observadores, mais espertos começam a obter melhores resultados. Se compartilham estes conhecimentos assumem naturalmente a liderança.
Caso escolham não compartilhar passam a acumular "poderes" que lhes dão alguma forma de superioridade sobre os demais o que também é natural mas reprovável.
Com o compartilhamento do "sucesso", pode-se presumir, com absoluta certeza, que mais pessoas com melhores resultados experimentariam, ainda mais, melhores praticas e toda a comunidade evoluiria.
O acumulo de "sabedorias" gera uma diferenciação entre os iguais e estabelece um clima de superioridade nos "espertos" e estes imediatamente se impõem a necessidade de "proteger" o conhecimento. Isolam-se territorialmente para evitar o "vazamento" da sabedoria conseguida e daí todas as outras formas de segregação passam a se consolidar e ao final de um tempo estabelece-se duas regiões com estilos de vida diferentes, classes diferentes, etc., etc.
Não tenho o interesse aqui de explicitar as diferenças mas tão somente entender como as diferenças se fazem presentes na coexistência humana desde os primórdios, com um simples arrazoado puramente sensato. Isto posto já dá para delinear uma visão mais clara do paradoxo: Se continuamos a nos definir como iguais estaremos a nos iludir com o conceito filosófico do "Modo Ideal" de convivência. Plenamente utópico! A vida nos mostra de forma escancarada o "Modo Real". A realidade explicita demonstra claramente, de forma pleonástica para não deixar dúvidas, onde mora o poder.
Resta-nos, observadores privilegiados, agir de "Modo Racional" e com as ferramentas que a segregação não nos privou de angariar, usar estes conhecimentos de analise e lutar com as nossas "armas" para tentar estabelecer uma relação mínima de Dignidade para todos. Não consigo perceber serenidade, humanidade, estoicismo e razoabilidade que me conforte ao ver um "irmão" esmolando sobrevivência!
Luiz Fernando Verissimo contextualizou:
"Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência."
Advogar um limite mínimo de DIGNIDADE para todos não pressupõe a derrubada dos "muros patrimoniais da elite dominadora". Esta luta visa tão somente garantir a racionalidade de prover Moradia, Educação, Saúde, Segurança e Trabalho para todos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário